Paz

Somente quero fechar meus olhos,
dormir
e descansar

exorcizar os demônios que me assombram
esquecer sua rejeição
e seu último olhar

apagar da memória meus erros,
as lembranças
e as saudades que ainda me fazem chorar

me deixar perder no abismo infinito,
pular de cabeça
e com a escuridão me chocar

apagar essa chama que ainda arde em meu peito
mesmo que para isso
meu coração tenha de arrancar

recuperar a serenidade que um dia tive
ainda que seja necessário
para um cemitério me mudar

extirpar essa dor que me acompanha
mesmo que para tanto
meu corpo eu tenha de mutilar

remover sua imagem da minha mente
ainda que precise
meus olhos de suas órbitas despegar.

Neste meu desespero,
só quero deitar minha cabeça dentro de um forno,
o gás deixar escapar

e enquanto lentamente me sufoco
imaginar que pela última vez
meus cabelos você está a acariciar

e neste meu último ato
a paz que um dia tive
poder recuperar.



Desorientação

Parque Felicidade,
Bairro do Amor,
onde os sorrisos passeiam de mãos dadas com os dias,
beijos e abraços dizem mais do que palavras,
o coração bate de um jeito diferente
e não há preocupações nem dor.

Travessa Indiferença,
ao final da Rua Distanciamento,
local escuro que não sabemos ao certo como chegamos,
qual caminho errado pegamos,
só percebemos que aqui estamos
e por mais que procuremos, sua saída não encontramos.

Cemitério dos Sentimentos,
no alto do Morro Descontentamento,
lugar no qual almas gêmeas se separam,
desejos são abortados,
o amor amputado
e os sonhos sepultados.

Avenida Corações Partidos,
esquina com a Rua Solidão,
onde corpos mutilados pela tristeza vagueiam
arrastando seus espíritos feridos,
trazendo consigo seu tórax aberto,
seu peito vazio e o fardo da paixão.

Praça Almas Desesperançosas,
em frente à Ladeira Suicídio,
onde homens cansados de caminhar
e em nenhum lugar chegar
nos bancos seus corpos cadavéricos deixam cair
enquanto tentam se decidir sobre qual caminho seguir.

Parque Felicidade,
Bairro do Amor,
lugar para onde todos que vagueiam nesta cidade
de desilusões e ressentimentos almejam retornar,
mas perdidos no frio labirinto dessas ruas sujas,
já cansados e com os pés sangrando de tanto andar
não conseguem mais seu caminho reencontrar.



Insanidade

Por que te punes homem?
Encarcerado estás agora em sua casa,
suando e enlouquecendo detrás de portas e janelas fechadas
enquanto as cortinas cerradas te impedem de ver
que lá fora o sol continua a brilhar,
namorados apaixonados trocam juras de amor na praça do bairro
enquanto você isolado em seu quarto
escreve notas de suicídio que tem vergonha de publicar,
os bares estão repletos de amigos brindando à felicidade
e você aí sozinho se envenenando com vinho vagabundo
só com um  maço de cigarros pra te acompanhar,
todos que fizeram parte do seu passado estão seguindo em frente,
construindo um futuro, enquanto você,
sem nem mesmo saber que dia é hoje
está com a vida estagnada, a se lamentar,
pois saibas que hoje é domingo,
famílias lotam as casas das mães e avós para almoçar
enquanto você, em sua obsessão de solidão,
sequer percebe que está há dois sem se alimentar,
gaivotas voam sob um céu azul, sobre um mar azul
ao mesmo tempo em que você, sobre a sua cama
fita o teto branco sem conseguir se levantar
e lá fora, no horto ao lado de sua casa,
borboletas pousam nas flores e acariciam suas pétalas,
enquanto você, em sua loucura, pesa o botijão de gás
para se certificar de que há o suficiente para se matar.
Ainda não percebestes homem?
Você pode tentar da vida fugir bebendo até desmaiar,
mas sabe que em algum momento irá acordar
e sua realidade novamente terá de encarar,
pois por mais que chores, se martirize ou se automutile
o que passou você não pode mudar,
as cicatrizes que infligiu ao seu coração tu não podes apagar
e mesmo que elas não o deixem mais bater como outrora
e mesmo que você não queira, ele continua a pulsar.
Não sejas tolo homem, tu se prendes nessa casa,
cerra-se em ti mesmo
mas não percebes que justamente de ti
que precisas escapar.